terça-feira, 13 de março de 2007

Dos fracos não reza a história...

Em primeiro lugar gostaria de apresentar as minhas desculpas pelo atraso na publicação deste post. Depois de alguns adiamentos, a fazer lembrar o recente festival de Hip-Hop, vamos ao que interessa e falar, finalmente, dos Heróis do Mar.
Como já devem ter reparado, os Heróis do Mar são a minha banda portuguesa de eleição dos anos 80, a par de António Variações. O especial cuidado com que procurei fazer a retrospectiva da carreira do grupo tem a ver com critérios de isenção que sempre impus aos posts do Eléctrico 80.
Estreou a 8 de Março último o filme/documentário intitulado “ Brava Dança “, apresentado pela primeira vez no festival Doc Lisboa em Outubro do ano passado. A coincidir com esta estreia foi lançada mais uma compilação, a 4ª, que, de todas a editadas, é a mais abrangente (embora incompleta) da carreira dos Heróis do Mar. Para quem queira começar a descobrir ou ainda não tenha qualquer discografia, “ Amor – O melhor dos Heróis do Mar “ é um bom ponto de partida.
Primeiro os Faíscas, depois o Corpo Diplomático e finalmente os Heróis do Mar em 1980. Pedro Ayres Magalhães convida então António José de Almeida (baterista dos Tantra) e Rui Pregal da Cunha para um novo projecto. Para além de Pedro Ayres, transitavam do Corpo Diplomático Carlos Maria Trindade e Pedro Paulo Gonçalves. Uma curiosidade: quando o Corpo Diplomático abriu audições para um vocalista, um dos candidatos foi António Variações que chumbou. Sendo conhecido como cabeleireiro e não como músico os elementos da banda aproveitaram e pediram para Variações lhes fazer o corte de cabelo.
De volta à música… procurando fazer uma nova abordagem da música portuguesa, os Heróis do Mar foram acusados de nacionalistas e fascistas, quando volvidos poucos anos sobre a revolução dos cravos, falar sobre portugalidade era considerado assunto tabu. A estética complementava a música e ambas fundiam-se num corpo único, daí que não esteja longe da verdade considerar os Heróis do Mar como a primeira banda pop moderna portuguesa, seguindo os trilhos dos britânicos Spandau Ballet e Duran Duran.
No que respeita a discos, o primeiro single sai em Agosto de 81 “Saudade/Brava Dança dos Heróis “, ambos os temas a fazerem parte do LP de estreia “ Heróis do Mar “, também de 81.
Ainda sem garantias quanto ao sucesso comercial e com uma crítica adversa, os Heróis do Mar viviam tempos difíceis até que surgiu, em 82, o máxi-single “ O Amor “. De um momento para o outro tornaram-se a banda do momento. Os jovens portugueses podiam dançar nas discotecas ao som de um hit cantado na sua língua. O sucesso comercial estava assegurado mas a crítica acusava-os agora de vendidos ao mercado.
Ainda neste ano os Heróis do Mar rumam a Paris para fazerem a primeira parte do concerto dos Roxy Music.
No ano seguinte sai o segundo LP “ Mãe “ que se revela um flop, sem que nenhuma música se consiga impor. Ainda neste ano é editado o single “ Paixão “ que faz esquecer o fracasso do álbum anterior. A revista inglesa “ The Face “ considera os Heróis do Mar como o melhor grupo de Rock da Europa.
Em 1984 colaboram com António Variações como banda de suporte no seu segundo álbum “ Dar & Receber “. Esta parceria, idêntica à estabelecida entre aquele músico e os GNR no seu álbum de estreia “ Anjo da Guarda “, revelar-se-ia um enorme sucesso.
Ainda neste ano é lançado o mini-LP “ O Rapto “ de onde são retirados os temas “ Supersticioso “ e “ Só gosto de ti “. Apesar do sucesso, a banda estava longe do espírito dos primeiros tempos e mantinha-se mais por questões comerciais e com uma estética a fazer lembrar uma vulgar banda de Rock.
Em 1985 o single “ Alegria “, à semelhança de “ Paixão “, embora pior, é mais um tema fabricado para as pistas de dança. Partem depois para Macau com o objectivo de procurarem inspiração para o novo álbum e ficam por lá um mês. O seu regresso é marcado pela roptura com a Polygram e o álbum seguinte “ Macau “ de 86 já é gravado nos estúdios Valentim de Carvalho em Paço de Arcos.
Com este álbum os Heróis do Mar tentam recuperar alguma da essência que esteve na génese da banda. O sucesso comercial não foi uma prioridade embora o single “ Fado “ tivesse obtido um relativo sucesso. Em 1987 é editado o single “ O inventor “, revelando uns Heróis do Mar já muribundos.
Pedro Ayres Magalhães já não estava a tempo inteiro na banda e o tempo era dividido com o seu novo projecto “ Madredeus “. A banda mantinha-se mas os seus elementos passavam cada vez menos tempo juntos. O princípio do fim começou com a saída de António José de Almeida, que já não participou no álbum seguinte “ Heróis do Mar IV “ de 88, sendo substituído por uma caixa de ritmos. Deste álbum foi retirado o single “ Eu quero “, que apesar de delicioso no que respeita aos arranjos revelava uns Heróis do Mar sem alma. Em 1989 acabaria por ser editado mais um single “ Africana “, antes do fim inevitável em Outubro deste ano.
Quanto aos restantes membros, Pedro Paulo Gonçalves e Rui Pregal da Cunha fundaram os LX-90 (mais tarde Kick Out of The Jams) com uma sonoridade próxima da cena de “ Madhester “. Carlos Maria Trindade dedicou-se à produção e tem dois álbuns editados. Presentemente é teclista dos Madredeus, tendo substituído Rodrigo Leão. Pedro Paulo Gonçalves abriu um atelier de roupa com a mulher, em Londres e exploram o conceito de fazer roupa a partir de roupa. Já vestiram nomes conhecidos como David Bowie e os Blur.
A importância dos Heróis do Mar para a música portuguesa é muito maior do que a sua consistência enquanto banda. Os álbuns oscilaram muito, musicalmente e em termos de qualidade. Quando um álbum não resultava fazia-se um single para vender e esquecer o álbum anterior. Temas como “ O Inventor “ e “ Eu Quero “ por muito bonitos que soassem serviam apenas para mostrar ao mercado que a banda estava viva, quando isso não era verdade. Apesar da sua história ser em tudo idêntica à da típica e efémera banda Rock que tem um início difícil, conhece o sucesso, depois a sobrevivência e a manutenção das aparências e por fim o colapso, acabaram por deixar a sua marca num Portugal onde tudo estava por fazer. Até então a música não era encarada de forma profissional e os Heróis do Mar fizeram-no.
Como já referi não é injusto o rótulo de primeira banda pop moderna portuguesa uma vez que, os Heróis do Mar foram pioneiros na criação e exploração de uma imagem associada à música, definindo um padrão seguido mais tarde por outros músicos e que ainda se mantém válido. A música só por si não fazia sentido sem uma estética associada.
Com altos e baixos os Heróis do Mar deixaram-nos algumas das melhores pérolas que ficarão para sempre na história da música portuguesa. São temas intemporais que não deixam ninguém indiferente, para quem os acompanhou e para as gerações mais novas que apenas ouviram falar deles.
Para terminar recomendo que vejam o documentário, comprem a compilação e esperem pelo regresso dos Heróis do Mar, nem que seja para um único concerto. Dos fracos não reza a história…


Amor - O melhor dos Heróis do Mar

1. Amor (Parte I)

2. O Inventor
3. Paixão
4. Supersticioso
5. Fado
6. Saudade
7. Só Gosto de Ti
8. Eu Quero (Mistura Possessiva)
9. Alegria
10. Glória do Mundo
11. Cachopa
12. Brava Dança dos Heróis
13. Só no Mar
14. Africana
15. Revolução
16. Café
17. Amor (Versão Nocturna)

11 comentários:

Tremoço Radioactivo disse...

Vi o documentário no DocLisboa sentado ao pé dos Heróis do Mar. Viu-se que eles gostaram. Eu tb...se bem que podia ser um pouco melhor. Pareceu-me que faltou mais ousadia e fôlego à obra. Mas em geral vê-se bem.

Já agora um reparo: o Rui Pregal da Cunha já mora em Portugal há uns bons tempos. É DJ e tem outros projectos cá.

Outro reparo: o festival de Hip-Hop aconteceu sim. Foi na semana passada no Pavilhão do Restelo. Pouquíssima gente.

BV disse...

Benvindo caro e ilustre amigo!:)
Relativamente a Rui Pregal da Cunha sei que é DJ e não referi que não residia em Lisboa.
No que diz respeito ao festival Hip-Hop, pela notícia que li no Correio da Manhã do dia 23 de Março, fiquei com a ideia de que o mesmo não se tinha realizado, o que não seria de estranhar atendendo aos 3 adiamentos anteriores. A mesma notícia não era muito explícita nesse aspecto. Até pedi a outra pessoa para a ler e ver se tinha chegado à mesma conclusão que eu. E de facto, pelo que vinha escrito, dava a entender que tinha sido o 4º adiamento!

Anónimo disse...

Se olharem fixamente para o cartaz do filme e desfocarem os olhos lê-se

RAÇA BRANCA!

BV disse...

Acreditar em algo que só existe na cabeça de alguns é meio caminho para ver coisas onde elas não existem...

Tremoço Radioactivo disse...

Contra todas as expectativas – e após dois adiamentos e um cancelamento – 50 Cent actuou finalmente no Festival Afro-americano de Hip Hop, entretanto rebaptizado de 50 Cent e Amigos. Podia ter sido um grande concerto. Mas não foi.


Naquela que foi, de acordo com a organização, “uma alteração de última hora”, o rapper nova-iorquino adiantou a hora do espectáculo e em vez de subir ao palco dez minutos depois da meia-noite, como estava previsto, começou a actuação ainda não eram 21h30. “Ele tinha de partir para Luanda ainda nessa noite [5.ª feira] porque ia actuar no dia seguinte em Angola e isso obrigou-nos a mudar o alinhamento do festival”, justificou ao CM fonte da CasaBlanca, empresa promotora do evento.

O resultado acabou por ser, no mínimo, confrangedor, já que muita gente chegou ao Estádio do Restelo já depois do concerto de 50 Cent ter terminado. Muito provavelmente nem nos clubes do bairro de Queens, onde nasceu e se tornou famoso, terá o músico actuado para uma audiência tão reduzida: apenas cerca de duas mil pessoas.

E as surpresas não se ficaram por aqui. Boss AC, que tinha a actuação marcada para as 21h10, não compareceu, enquanto Akon se viu a cantar em simultâneo com Busta Rhymes.

O concerto, ao estilo dois em um acabou por revelar alguns momentos de maior energia e fulgor, com a interacção com o público a culminar num mergulho de Busta para a plateia. Mas soube a pouco, em especial porque aquele não era, de facto, o ambiente de Akon, que foi quase um mero espectador.

Os angolanos Kalibrados fecharam uma noite que começou fria e nunca chegou a aquecer a sério e muitos abandonaram o recinto durante a actuação sem brilho.

STRIPTEASE FICOU A MEIO

Ao fim de pouco mais de 50 minutos em palco, 50 Cent decidiu pôr fim ao espectáculo com um striptease que levou o público feminino ao delírio. O rapper, que durante o concerto já tinha lançado duas t-shirts para a audiência, mostrando – indiferente ao frio que se fazia sentir – o tronco musculado, começou pelos ténis, depressa lançados para a plateia. Depois, sem pudor, ainda baixou as calças. Mas depressa se apressou a vesti-las novamente.

Antes de sair, deixou um recado para quem esperava vê-lo terminar a curta visita ao nosso país tal como veio ao mundo: “Não, desta vez não vou mandar-vos os meus boxers.” Provavelmente terá achado que a fraca afluência registada no Estádio do Restelo não merecia tão íntimo presente...


http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=235772&idselect=185&idCanal=185&p=200

*boy disse...

E agora falta o post da vinda dos Human League a Portugal... 16 de Junho...

Quem é que fica ficava feliz?

:)

*boy

Anónimo disse...

Que momento zen ali em cima....

BV disse...

Exmo. Sr. Dr. Tremoço!:)
Um agradecimento especial pelo esclarecimento que nos prestou. Foi um assunto que surgiu por acréscimo mas é sempre bom ficarmos a saber o que se passou.
Como já tinha referido, fiquei realmente com a ideia que o Festival Hip-Hop não se tinha realizado uma vez mais pela notícia do Correio da Manhã do dia seguinte ao evento:
" Akon parece não ter sido avisado para estar calado sobre os adiamentos do festival (anunciado para de de Dezembro, 2 e 22 de Fevereiro e, por fim, ontem) "

BV disse...

Um agradecimento especial a *boy pela sugestão de um post sobre os The Human League, a ser publicado muito brevemente...

Anónimo disse...

estes herois serão sempre os nosso herois da musica portuguesa!

Abssinto disse...

Agora aguardo o DVD.